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Biografia de Othelino resgata tempos românticos da imprensa no Maranhão

O livro “Othelino: um herói da imprensa livre” – lançado em São Luís no dia 15 de dezembro passado – resgata episódios de um jornalismo romântico, que existia no Maranhão, carregado de emoções, nas crônicas e poesias de diversos literatos e intelectuais.
A biografia de Othelino Nova Alves (1911-1967), jornalista maranhense assassinado em São Luís no dia 30 de setembro de 1967, mostra como a literatura tomava conta da imprensa maranhense, por meio de publicações e periódicos na época editados em São Luís.
O jornalista Manoel Santos Neto, autor desta biografia de Othelino Nova Ales, revela como o personagem principal do livro, ao iniciar sua militância como homem de jornal, logo se inclinou por um tom combativo, que decorria de suas virtualidades políticas, mas com um cunho literário também.
Com a personalidade forte de um crítico implacável, Othelino Nova Alves dizia que sua única arma era a caneta e era assim que se sentava diante da velha máquina de escrever para redigir seus textos contra as injustiças e desigualdades sociais que dominavam o Maranhão daqueles tempos.
A vocação política levou Othelino ao jornal, como redator, e nesta condição pôde conviver com figuras eminentes, dentre as quais Erasmo Dias, Neiva Moreira, Tarquínio Lopes Filho, Durval Cunha Santos, Ribamar Bogéa, Jámenes Calado, Marcelino Machado, Leôncio Rodrigues, Araújo Costa, Lago Burnett, Rodrigo Otávio Teixeira, J. B. Bastos Coqueiro, Eyder Paz, Haroldo Silva, Salvador José de Lima, Eloy Cutrim, Aldir Dantas, Luís Vasconcelos, Sálvio Dino, José Salim Rosas, Ademário Cavalcante, Nauro Machado, Milson Coutinho e Bernardo Coelho de Almeida, dentre tantos outros.
Com estes contemporâneos, o intrépido Othelino, grande polemista, viveu tempos de luta, de medos, de perigos e de desafios. E também de ameaças, atentados e de intimidações.
Quando começou a trabalhar na imprensa ludovicense, Othelino teve a chance de conviver de perto especialmente com Bernardo Almeida. O convívio diário nas oficinas de jornais os aproximou e os transformou em amigos fraternos.
Não existia computador nem internet. Notebook e o WhatsApp eram coisas impensáveis. Era a época dos gênios das letras, tempos de grandes jornalistas e de muita boemia, mas era também uma época de obscurantismo. E, em pleno regime militar, Othelino Nova Alves chegou a ser considerado o mais destemido dos jornalistas que trabalhavam na capital maranhense.
Seus artigos, assinados, denunciam as autoridades, clamam contra a injustiça, defendem os perseguidos. E ele exerce uma função temerária para um tempo em que a propaganda oficial procurava convencer o povo e, principalmente, a juventude de que o poder sempre tem razão. E isto de uma forma violenta, impune, danosa aos ideais de liberdade.
Eram tempos duros. Tempos de um jornalismo em que para formar a opinião pública era preciso desafiar toda a manifestação do poder e sacrificar até mesmo a própria sobrevivência.
A capital maranhense, São Luís, na época com 90 mil habitantes, já havia absorvido valores e inovações próprios da modernidade, mas ainda mantinha um ar de província que tornava a cidade acolhedora.
Em sua economia, baseada na indústria e no comércio, as referências mais destacadas eram cinco fábricas de tecido (Cânhamo, Santa Amélia, São Luís, Rio Anil e Santa Isabel).
Com cinco andares, o prédio do Hotel Central, entre a Avenida Pedro II e a Praça Benedito Leite, que acabara de ser reconstruído, era o mais alto da cidade. Pelas ruas, circulavam não mais que meia dúzia de carros de praça.
O escritor Bernardo Coelho de Almeida, no livro “Éramos felizes e não sabíamos”, afirma que naquele tempo não podia existir cidade mais amena e encantadora do que São Luís do Maranhão:
“Sua população não ia além de 90 mil habitantes. Ninguém falava em desemprego, palafitas e gente faminta. As fábricas de fiação e tecelagem Santa Isabel, Santa Amélia, Camboa, Rio Anil e Cânhamo – que nos acordavam ao alvorecer com o silvo de seus longos apitos – davam guarida a milhares de operários saudáveis e felizes”.
Bernardo Almeida era o nome jornalístico do poeta maranhense Bernardo Coelho de Almeida, nascido no ano de 1927, oriundo de família ilustre e numerosa da cidade de São Bernardo, na região do Baixo Parnaíba.
Convidado por Raimundo Bacelar, Bernardo Almeida foi um dos fundadores da Rádio Difusora do Maranhão emprestando o seu talento e brilhantismo a quase todas as atividades da emissora.
Excepcional cronista, Bernardo Almeida escreveu “A Difusora Opina” – o editorial que cantou os encantos e retratou os problemas do dia a dia da realidade maranhense. Apresentado diariamente, às 12 horas, o programa alcançou tamanha importância que chegou a influenciar a vida social e administrativa do Maranhão. Havia um locutor especialmente destacado para o horário mas, quando lida pelo próprio autor, ganhava em interpretação e havia maior brilhantismo.
Cabe fazer este registro histórico: foi o jornalista Othelino Filho (1949-2017) que sucedeu Bernardo Almeida como também brilhante redator do editorial “A Difusora Opina”.

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