quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A demissão do médico Alan Garcês

Por João Bentivi, médico, advogado e jornalista.
Nos últimos dias, repercutiu de maneira marcante a demissão do médico Alan Garcês de uma das unidades de saúde do governo estadual, especificamente o Socorrão de Presidente Dutra.
Poderia ser uma não notícia, afinal, a coisa mais comum no mundo é um empregador demitir um empregado. Ora, se marido ou esposa podem ser “demitidos”, porque não um funcionário ou prestador de serviços?
Mas terminou sendo uma grande notícia. De início, surgiram várias versões. Tenho dito, em algumas palestras, que todo fato que possui muitas versões se trata de algo em que sobram mentiras e faltam verdades. Não tratarei, nessa matéria, nem de mostrar mentiras, tampouco apontar verdades. Não me interessa.
Alan foi demitido. Pronto. Alguns motivos são muito pertinentes nas demissões.
Seria o doutor Alan um mau profissional? Caso fosse um inapto tecnicamente teríamos mais que justificada a demissão. A resposta é não. Alan Garcês é respeitado como bom médico, professor universitário, uma produção médica e acadêmica comprovada, entre outras qualidades.
Nessa ótica, a perda do trabalho do médico Alan Garcês determina uma perda de qualidade no atendimento que o governo do estado proporciona aos seus cidadãos. O governo, todos nós acreditamos, deseja o melhor para o povo. Alan Garcês quer dizer coisa excelente para o povo.
Estaria o médico Alan Garcês promovendo algum tipo de perturbação dentro do hospital, que acarretaria riscos administrativos? Por tudo que foi exposto publicamente, nada aponta nesse sentido e eu, especificamente, que conheço o doutor Alan, desde que aportou em terras maranhenses, posso dizer com convicção que Alan Garcês é indivíduo de boa índole e amante da paz. Mais um motivo que não justifica a demissão do doutor Alan.
A questão, então, seria financeira? O doutor Alan Garcês seria tão caro que estaria pondo em risco as finanças do governo estadual. Essa pergunta, fi-la, por fazer. É evidente que o salário de um médico é tão aviltado, que só porá risco na vida do próprio médico. Todos os médicos que conheço, que vivem da medicina como eu e como o Alan, trabalhamos mais de oitenta horas semanais. O risco, aí, é da nossa integridade física. Portanto, nada se relaciona com questão financeira e salarial.
Afinal, qual o porquê dessa demissão?
A versão que sobra é que Alan foi vítima de sua participação destacada de oposicionista ao governo do PT e de seus aliados, incluso PC do B. Caso seja verdadeira essa hipótese, o governo do estado deveria demitir mais médicos. Dos médicos que conheço, o mais destacado aliado de Dilma Roussef é o Marcos Pacheco, por motivos mais que óbvios. Evidente!
Assim, se a assertiva anterior é verdadeira, o Alan torna-se um injustiçado. Na linguagem mais comum, o “boi-de-piranha”. Representa um aviso do governo, para o resto da turma, mais ou menos assim: seu doutorzinho que está se mexendo demais, falando o que não deve, o Alan de agora será você amanhã!!!
Sendo verdadeiro o raciocínio anterior, não dignifica o governo. Mas eu não fiz esse artigo para criticar o governo Dino. Foi votado por todos nós, é legítimo e está só começando.
A minha perplexidade é com as tais entidades médicas. São muitas: Associação Médica, Sindicato e CRM, sem esquecermos que existe uma SOBRAMES e uma Academia de Medicina. Teoricamente os médicos tem muitos para defendê-los. Não sei se o Alan está sentindo essa defesa. Acho que não está.
Na campanha eleitoral, em reunião no CRM, que não fui, o governo atual fez uma promessa, junto às entidades médicas, que nenhum médico seria demitido. Muitos já o foram. Nada a reclamar do governo. Não entendo as tais entidades. Não me consta que as entidades tenham se manifestado contra essas demissões. Em alguns casos, os médicos foram dispensados por telefone, em outros nem isso: chegaram para trabalhar e foram dispensados pela atendente.  Em tradução livre: vá embora vagabundo!
Enquanto isso, na Associação Médica, Sindicato e CRM: NADA, nadica de nada.
As entidades médicas, acovardadas e inertes, precisam entender que o caso Alan, de agora, poderá se repetir em Maria, Pedro ou José, mais à frente.
Bastou um coronel da PM ameaçar um advogado, em Bacabal, a OAB se fez presente de maneira decidida. Em contrário, Alan, demitido, tem ao seu lado somente a solidariedade amorfa dos amigos. Não é o bastante. Há necessidade obrigatória de um posicionamento formal das tais entidades médicas, pelo menos para justificar o valor pago anualmente para o Conselho Regional de Medicina.